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Reflexão

Hipsters x Coxinhas

Transmitido por @pedrozath / Segunda, dia 1 de Setembro de 2014


Vez ou outra me deparo com pessoas que desconhecem o significado destes termos. Ao explicar, percebo complexidade nestes neologismos. Muito além do que gírias, estes denotam posições radicais em relação à vida como um todo.

Antes de mais nada vale salientar que o homem, como animal simbólico que é, já tratou de criar caricaturas de ambos. O hipster tem seu óculos de aro grosso, barba (ou apenas bigode) se locomove por meio de bicicleta fixa, freqüentemente é vegetariano (ou vegano) e escuta as seguinte bandas: ... não vale nem a pena falar porque você não deve conhecer (#humor). Já o coxinha tende a usar roupas com um pique de arrumadinho e que ressaltem os músculos, freqüentemente polos mas muitas vezes xadrez, ou qualquer outra coisa que os hipsters usavam 10 anos atrás (e o mesmo se aplica para música e qualquer outra coisa, mecanismo que vou explicar no próximo parágrafo). Não tem jeito, o ser humano cria uma imagem padrão pra tudo e não é destas imagens que eu quero falar, mas sobre a lógica por trás destes estilos de vida.

Muito bem, o hipster antes de mais nada é aquele que quer estar por dentro das últimas novidades. Ele quer ser, usar, ouvir, assistir, vivenciar algo "before it was cool" (quando não era daora). Nesse sentido pode-se entendê-lo simplesmente como um early adopter (aquele que é um dos primeiros a usar algo). O conceito passa por isso, mas vai muito além. O hipster acha o mundo boring (tedioso) e as pessoas burras e sem graça. A última tendência é o seu refúgio contra a angústia de se sentir só mais um numa multidão acéfala.

Já o coxinha, ele, no fundo, é… exatamente a mesma coisa!

Para muitos isso vai soar como non-sense. Mas eu explico: o coxinha quer ser, acima de tudo, diferenciado, especial. Ele não quer se sentir mais um na multidão. Quer mostrar que é alguém por dentro das últimas tendências, que tem bom gosto. Então por que essas duas figuras se diferenciam diametralmente?

A resposta é: medo de ousar.

O coxinha acima de tudo representa o medo de ousar. Ele vai sempre pelo caminho seguro. Ele morre de medo de não ser aceito pelo grupo no qual sempre pertenceu. Ele tem fobia de perder aquilo que sempre teve. E esse é um ponto chave. Algo que marca todos os quase hipsters conceituais que conheci (não necessariamente imagéticos, caricatos) é em algum momento ter sentido de forma traumática que não faz parte do todo, seja por uma característica física, psicológica, ou criação paterna/materna. Filhos de artistas e filósofos, por exemplo, freqüentemente se tornam hipsters (ou simpáticos com). Já o coxinha não teve isso. E então a dinâmica de grupo entra em ação:

A dinâmica é a seguinte: aqueles que fazem parte do grupo temem não mais fazer. Desta forma, ele reforça sua posição se afirmando perante aos em situação mais frágil. E como se trata de um grupo, os demais imitam a postura com medo de ser este outro em situação frágil.

Ok e como isso se relaciona com esta dialética de cozinhas versus hipsters?

Antes de responder esta pergunta, uma palavra sobre normatividade: o normativo, ou de forma mais simples, normal, é aquilo que não se questiona. Ele não precisa de razão de ser. Simplesmente o é. Por exemplo: porque desejamos bom dia às pessoas quando as vemos? Ou melhor dizendo, porque, para sermos consideramos pessoas civilizadas, bem educadas, e portanto, parte do grupo, ou de um grupo, precisamos desejar bom dia às pessoas? Porque é a norma, o normativo, o normal. Você não precisa justificar o normal.

O coxinha é aquele que sempre se empoderou do normal para garantir sua posição no meio social em que se encontra. Ele vê no anormal fragilidade, inferioridade. Nao quero falar sobre racismo, machismo e homofobia, mas de certa forma, é dai que se derivam estes fenômenos.

Agora, o fato curioso é que os coxinhas na verdade se espelham nos hipsters. Não é difícil perceber isto, basta ver que muitas das tendências por eles adotadas em algum momento foram uma tendência hipster. Mas o coxinha, como já vimos, precisa de antes de mais nada ter certeza que será bem aceito no grupo ao adotar uma determinada tendência.

Também é interessante como a mídia consumida no geral sempre reflete personagens ousados e que lutam contra toda a normatividade de seu grupo em busca de sua individualidade. E como os coxinhas sonham e se emocionam com estes personagens. Mas ao sair do cinema, tudo que conseguem fazer é serem normais.

Já o hipster por sua vez, vive o desejo paradoxal de ser referência mas ao mesmo tempo não ser. Explico: ele desvenda um novo mundo sozinho, tenta mostrar pros outros o quão legal este mundo é, o quanto ele está perdendo, mas quando finalmente o outro vai pra este mundo e gosta, perde a graça e ele então parte para uma nova aventura, formando assim um eterno ciclo de descobertas e desanimos.

Para concluir, partindo do pressuposto de que todo ser humano tem por objetivo o seu processo de individuação, o que entendo por uma descoberta e aceitação daquilo que te faz bem e lhe proporciona prazer e conforto, apresento-lhes meu ponto de vista sobre devemos ser hipster ou ser coxinha.

Imagine um círculo. Imagine que em um ponto deste de círculo, se encontra a sua verdadeira individualidade. No centro deste círculo, se encontra a normalidade. Ela é como um polo magnético. Vamos supor que ele seja positivo. Partindo desse pressuposto, o coxinha tem sinal negativo e por isso, sempre que tenta encontrar sua individualidade, é sugado para o centro. Já o hipster tem sinal positivo e por isso, é repelido pelo centro, sendo desviado completamente da rota. O meio termo entre o coxinha e o hipster seria aquele capaz de se fundir com seu verdadeiro eu.

Agora exemplificando em termos reais: Isabela. Isabela olha para outras garotas e se vê cansada de ser só mais uma branquinha de cabelo lisinho escorrido. Ela se sente especial e sente vontade de mostrar por meio de sua aparência que não é apenas mais uma. Ela toma uma decisão radical e mudar o cabelo. Vai no Google e pesquisa alguns cortes. Ela vê muitos cortes. Se decide por três e resolve mostrar para as amigas. Elas reprovam o que ela mais tinha gostado, dizendo que não tem nada a ver, que é tosco ou masculino. Ela acaba por mudar de opinião e por fim toma a decisão de tingir algumas mechas de loiro.

Agora vamos ao outro exemplo: Fred. Fred gostava muito de metal na sua adolescência, mas hoje acha coisa de menino que joga LoL. Fred hoje ouve bandas que captam a essência do pós-modernismo, que tem uma postura irônica sobre o mundo. Que ressoam com filmes e livros densos e profundos. Fred fica sabendo que sua banda favorita da adolescência vai tocar. Fred vê esta notícia em seu facebook mas quando vê comentários de milhares de garotos e coxinhas falando que o show vai ser "mto fodaa", Fred desiste de ir. Perdeu a graça.

E é isto. Tirem suas próprias conclusões.